domingo, 27 de janeiro de 2008
Post 10: Textos (I)
Escondidos na bolsa, os óculos ressaltam a fragilidade necessária. A cara pálida busca pena. Descarta de imediato os homens, insensíveis. Assim como a compaixão de senhoras da sua idade (levam uma vida igual a sua). Viagem perdida, desperdício. Pessoas iguais, pensa, agem segundo o desespero de suas vidas mornas. Pressa. Lembrou-se do maquinar em sua cabeça, teorizando motivos e causas... da primeira vez, do medo, de como tudo vira costume (costumes não envolvem medo).
Entra no vagão. Senta. Ninguém. Caras comprimidas. Enfastia-se de sua própria vontade, cansa. Observa. Desde quando seriam iguais? Mesmos movimentos, mesmas ambições.
- É... - balbucia.
- A senhora está bem? - pergunta a garota, esperando resposta afirmativa.
Merda. Boas maneiras. Tudo o que dispensava hoje (talvez não amanhã). Pensa.
- Não muito, querida.
Merda, pensa a garota... velha sozinha é foda!
- Posso ajudar em algo?
Tola, mas perfeita. Jovem, mas interessada. Entra em conflito consigo mesma. O vento bate forte. Os passageiros fecham as janelas... mesmos movimentos!
- Meu filho...
Problemas familiares, merda.
- Seu filho!? - pergunta em busca de uma resposta que não quer escutar.
- Não sei por onde anda.
Agiu conscientemente. Desistira de tentar entender, e muito menos de se punir. Era assim e pronto. Sua natureza fria. Esquentava-se sendo utópica e mentirosa.
- Como? - saco.
- Saiu de casa, uma mochila... algumas roupas, e o dinheiro que tinha posto dentro de um pato de porcelana - Detalhes, como o do pato de porcelana, indicam veracidade, pensou sem ter tempo para pensar.
- E não deu notícias?
- Um telefonema... ruídos. Ouvi seu nome, nada mais. - sentia a pobre menina compadecer.
- Se ele telefonou, está bem. - velha chata, matrona. Deve ser por isso que teu filho fugiu.
- Não tenho certeza, não andava bem, tinha aprontado. - estava abalada pela fala da garota.
- Mas os jovens aprontam... - evitava uma extensão da conversa.
- É? - garota idiota... seca.
- Já dei muito trabalho pra papai! - que seu filho se foda.
- Ó, querida! Obrigada. - filha da puta. Deve ser adotada, aposto. Maldita bastarda.
Mexe nos óculos, olha o relógio velho. Movimentos treinados e executados naturalmente. Orgulha-se... era uma mulher de objetivos sempre alcançados. Procura o nada na bolsa, encontra a miséria: pouco dinheiro, um batom velho de cor duvidosa e o estojo visivelmente antigo dos óculos. Como não causara pena?
- Você estuda? - tenta mais uma vez
- Sim, senhora. - corta o papo.
- E o que faz? - insiste.
- O colégio ainda. - tenta um fim definitivo.
- Meu filho tinha acabado de entrar na faculdade. Pública! Era um menino tão esforçado, mas não soube aproveitar o dom de Deus - o sobrenatural era sua cartada final.
- Mas a vida é assim mesmo!
Frases vagas. Tão irritantes quanto movimentos sincronizados.
- Pois é, mas acredito que Deus vai me ajudar nessa luta. - Deus, luta de uma mãe... essa vadia!
- Ter fé já é um bom passo. Quando mamãe morreu, foi em Deus que me agarrei.
Ganhara-a.
- Ó, minha querida. Meus sentimentos.
- Tudo bem. A saudade permanece, mas a dor passa.
Frases vagas.
- Mora com seu pai?
- Sim, senhora. Tenho que trabalhar... ajudar no sustento de meus irmãos.
- Mas trabalhar tão nova? É quase um pecado.
- É necessário. Mas tenho fé... os estudos me farão mudar de vida.
Toca o telefone. A garota atende. A senhora vira em busca da melhor posição para ouvir o telefonema. Remédios, urgência. Pobre garota. Deve ser puta, só assim sustentaria os irmãos, supõe.
- Desço na próxima estação. Boa sorte.
- Boa sorte?
- Com seu filho!
- Agradeço - cora subitamente.
Desce a menina. Velha escrota, diz baixo, e burra. Ri.
Permanece a senhora sentada. Talvez retorne, pegue outra linha. Não tem pressa, ninguém a espera. Pensa na garota, uma infeliz. Comove-se com o alheio. E comove-se consigo mesma, é humana.
Volta, a senhora, enganada. Mas feliz.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
Post 8: Devaneios sobre um outrem acadêmico.
E não era assim que acontecia em todos os dias, porque Ela não tem jeito de quem cai na rotina. Aliás, Ela e rotina são protótipos completamente divergentes. A não ser pelo trabalho, o seu tão sedutor e admirável labor de cada dia.
Eu queria vê-la a partir do seu prisma humano. Na minha perspectiva sacralizada e idealizada, o espaço para os atos escatológicos e corriqueiros não existia. E foi a partir dessa madrugada que eu coloquei minha sinapse no seu lado menos preceptístico. Agora, o impressionismo impera.
Ela deveria chegar no seu apartamento nas Laranjeiras lá pelas 16:30, 17:00, toda apressada para um não-sei-o-quê. Deveria colocar as chaves do carro – uma Palio prata – e do apartamento sobre o aparador da sala, sentar no seu sofá daquele jeito tipo chinês, tirar as sandálias e arrumá-las metodicamente juntas perpendicularmente ao móvel onde estaria sentada, e chamar a empregada.
- “Cadê a Cecília?”
- “Tá no quarto, falando no telefone com a amiguinha do colégio.”
- “Ah sim. Traz um copo de suco pra mim?”
- “Sim, senhora.”
Agora ela deveria ligar a TV. Procurar algum jornal pra saber as notícias do dia. Trocar freneticamente de canal. Ao não obter sucesso em sua busca midiática, deveria folhear um livro sobre Teoria do Efeito que estaria perto do abajur.
Ao ir conversando com a empregada e lendo, ao mesmo tempo, – sim, ela parecia ser hiperativa – ela deveria pegar o “trakinas” deixado sobre o móvel da sala. “Trakinas” de morango com chocolate deveria ser o seu predileto.
De repente, a filha surgiria na sala.
- “Mãe, me dá um dinheiro pra eu ir no cinema com a Rebeca amanhã?”
- “ Como é que você vai, Cecília?”
- “Eu pego o metrô rapidinho, mãe!”
- “Que horas?”
- “Ah, umas 16:00...”
- “Você volta antes das 18:30, hein!”
- “Iiiih, tá bom, mãe! Vai ou não vai dar o dinheiro?”
Ela deveria abrir a carteira com o seu jeito desajeitado, preocupado e, certamente, ligaria pra filha no dia seguinte pra saber se ela chegou bem.
Depois de folhear mais um pouco o seu livro sobre Teoria do Efeito, ela deveria fechá-lo e olhar, sem rumo, para o chão. “Ééééé...”
Uma ducha a esperaria. Quente, bem quente. E, é claro, ao som afinadinho de sua voz ao estilo “Djavan”.
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
Post 6: Vai ser Gauche na vida.
Um dia comum na zona sul do Rio de Janeiro.Trânsito frenético, pessoas hiperativas correndo de um lado ao outro em busca de um não-sei-o-quê.Mas existia, sentado em um banco da orla copacabanense, um senhor.Um senhor pensativo e estático.
E a eterna Segregação Sócio-espacial. Prédios pomposos, imponentes situados na Avenida Atlântica e casinhas precárias no morro adjacente. Paradoxo infiel.
De repente, não mais que de repente, uns estalos no céu. Tiros que se confundiam com fogos de artifício.Correria. Fato freqüente no Rio.
E aquele mesmo senhor estático sentado em um banco da Atlântica.
Viaturas policiais com suas sirenes apitando, denunciando alguma irregularidade, em direção ao tal morro.
E aquele mesmo senhor estático sentado em um banco da Atlântica.
Mais tiros.
Agora, sim, eram fogos. Fogos denunciando a entrada da polícia no morro.Uma espécie de “código-morse” transviado, marginalizado.
E aquele mesmo senhor estático sentado em um banco da Atlântica.
Mais tiros.
Mais pessoas correndo desesperadas.
Mais estabelecimentos comerciais fechando suas portas.
Trânsito menos frenético em função da violência.
E aquele mesmo senhor estático sentado em um banco da Atlântica, calmo, olhando aquilo tudo num olhar mágico, petrificado.Um senhor calvo, de óculos, mãos cálidas e um olhar consolador.
Esse senhor foi um poeta. Um homem sensível. E, em função desta sensibilidade, tornara-se levemente arredio à sua própria espécie. Guardava no sobrenome a alma carioca: Drummond.”Drum” de “alta”.”Onde” de”onda”.”Onda alta”.O mineirinho mais carioca que o Rio de Janeiro já pegou pra criar. Esse mineiro-carioca, observador, era Carlos Drummond de Andrade, o Carlito, em sua estátua em Copacabana.
E este mesmo senhor estático sentado nesse banco da Atlântica estava a observar a destruição da sua Cidade Maravilhosa.