Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Post 50: A vermelhidão dos cravos que coibiu a pólvora.

E era, sobretudo, um ato de revolução contida em minhas partes de(s)compostas pelas fasces supremas que pesavam na percepção que me cabia.

Coube um dia. Há um passar de tempo não atual. E não tão próximo. Trituraram os meus princípios e leis internas. Decapitaram. Mutilaram a minha ordem.

Mas irrompi através de três letras, mesmo sendo um ente irrisório diante tanta magnificência ditatorial. Flostriei em tentativas, suspenso pelo fio molestado da utopia-não-utopia. Utopia para eles, esses alguns companheiros desnaturados. Plausível para mim. Perdição para o sistema.

Minhas artérias e veias carregaram a densidade de um sangue ávido por eutimia. Estopim através da audição: Rádio Renascença foi incumbida por transpassar o nosso gesto recôndito.

A fulguração lunar observou o nosso embate, abastecendo e fortificando os raios solares que nasceriam no após. Sem morte em superfície. Com a vida disparada na vermelhidão dos cravos que coibiram a pólvora.

Festejo popular. Populares em frêmito regozijo clamando por independência não auto-determinada em espasmos de anacronismo.

E os paladinos jorravam na epiderme do terceiro continente mais extenso que um dia já fez Pangéia: armas empinadas e ruidosas em terras subestimadas que promulgam indagações perdidas e póstumas – deixai fazer, deixai passar, o mundo corre por si mesmo, companheiros militares? Haverá consciência auto-determinada ou o processo trovejará em esguicho de radicalismo?

Necessitávamos de uma transição. Queríamos atravessar com segurança a margem do rio caudaloso de nossa existência. Pedíamos, a nós mesmos, o deslizar paulatino, suave. Acolhedor.

Mas abandonamos. Abandonamos como os cães que se sentem feridos. Desamparamos uma legião e desertamos a história que se iniciara em 1415.

Que Ceuta nos perdôe e que tenhamos Pedros e Paulas velando por nossos cacos. Por meus cacos perdidos em África.

Assim seja.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Post 49: Coisas que ficaram pelo caminho.

Pensamentos rápidos e furtivos...

Perdas são tão necessárias quanto obrigatórias. Não há nada que dure eternamente (mesmo que os mais românticos e menos céticos digam o contrário); não há vitalidade nem energia suficiente que ilumine todos os cantos e esquinas; não há força que nos proteja, ou revele, e guarde tudo de bonito que porventura tenha acontecido. O bonito também morre em algum lugar.

Resguardando o que é realmente importante, as coisas tendem a ficar, inevitavelmente, pelo caminho: quando não as perdemos, elas se perdem de nós. E num delírio súbito, há a imensa vontade de congelar tudo o que é conscientemente distante, mas nos fala em algum ponto; um egoísmo medroso e desculpável – fugir da solidão normalmente leva a condutas não-perceptivéis.

Enfim, esse desabamento de idéias surgiu de um vocábulo africano (não sei muito sobre a origem dele, então... desculpe!): Sankofa.

Sankofa: nunca é tarde para voltar atrás e recolher o que ficou pelo caminho.

Seria mais fácil reclamar e se lamuriar do que perceber que é possível andar contra o vento?

__________________________

Vou aparecer mais freqüentemente!

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Post 46 - Ana Alencar e a felicidade clandestina: sensações de uma Teoria Literária tremeluzente.

Cabelos, mãos e caneta com ares franceses, sotaquezinho palpitando as artérias e aqueles olhos azuis que penetram nas sinapses e as cessam. Deixam-nas suspensas e apoiadas pela larguidão do sorriso pueril.

Colo bonito e acolhedor. A cadeira pede encarecidamente para ser utilizada. As paredes colocam os óculos para poder enxergá-la melhor. Aquarelas de Magritte e Monet surgem para tentar recriá-la, inutilmente. Ceci n'est pas une pipe, mais une des perfections littéraire. Et il est l'un des perfections humaines. Hu-mai-nes. Não sei separar sílabas em francês. Mas também Ana Alencar não foi feita para ser dividida. Justificado, pois.

Sartre ressuscita, abraçado com Beauvoir para ver Ana Maria Amorim de Alencar expirar contentamento pelas frestas e poros de seu corpo. Aninha é ólbos, eutychía, eudaimonía carnalizadas.

Flaubert, Gide e Baudelaire reúnem-se no corredor para vê-la passando com seu jeito miúdo e gigantesco; Kafka escreve uma carta ao pai relatando o processo de sua metamorfose após sentir a sua presença serotonesca, e Clarice Lispector digita uma quinta história a partir de um suddenly I see - ''her face is the map of the world.''




_____________________________________
Vontade de passar pela Champs Elyseés e cantarolar oubliè tes erreurs et tes peurs, je les efface...com direito a uma boina francesa para retirá-la quando aquele sorriso passar apoiado em colo de bailarina.

Post 45: Saiu. Tout à coup.

Tem algo instalado e estalando na garganta. Há algumas horas atrás, eu desconhecia. Agora, em um hoje-plus-que-parfait, continuo a não identificar. Linhas pontilhadas começam a se esboçar na frente dos antolhos que tirei há pouco.

É uma nitidez de pós-cirurgia ocular. Eu vejo, mas não enxergo. Ouço, mas não capto. Toco. E lembro.

Mas lembro de que, deuses? Três pontos.

Lembro da ignorância e subumanidade que existe in. Homines non sapientes sunt.
Foi somente estorieta.

Exijo a saída do labirinto. Almejo traços apolíneos, pois.






________________________________
E a Fernandinha, ἀγαπημένη μοῦ, vai pra Grécia. Só volta em Setembro. * λάκκος *

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Post 42: B.O. inexistente por falta de forças: uma normalidade.


O tênis chiou. Ou será minha cadela gritando de dor por eu ter pisado em sua patinha? Os sons abraçaram-se e eu me perdi. Sim; foi o tênis. Alívio recompensado por um beijo no pelo negro quase escasso.

Ela me olha surpresa e confusa. Meus olhos cruzam os seus numa linha pontilhada e vejo o símbolo da pergunta:?. Outro beijo. Parece que ela esqueceu a pergunta. Ainda bem. Também esqueci a resposta.

Dá-me uma sensação compressora e aliviante. Começo a entrar no pensamento do meu pensamento. Quero escrever. Quero viver. Quero minha literatura.

Meu corpo pede meu comprimido de êxtase: minha literatura. Não se importe com a repetição de palavras. Minha literatura. Normal, pois. Quero frisar meu vício. Minha literatura. Não quero ser apenas existencialista. Quero ser naturalista. Parnasiana. Realista. Modernista. Classicista. Barroca. Quero ser irregularidade pura no meu sangue escarlate.

Passo na praia. O mar me observa, mas não consigo enxergar os seus olhos. Incômodo. Mistério Alucinante. Poseidon egoísta e intimamente tímido.

Olho pro lado. Vendedor de coca-cola não agüenta mais gritar. Essa é a nossa Copacabana. Cansaço batendo. Osmose sofrendo. Calor assassino.

Ele vai até o mar mergulhar. Uma saída para o dia de verão sufocante. Deixa suas coisas na areia. Pouco longe, bastante perigo.

Peixes miúdos cruzam seu corpo. Moleque atentado cruza a praia levando o isopor. O homem vê e nada faz. Falta de forças. Barriga saliente. Corpo esgotado. Representação fragmentada de um übermensch.

Ele senta na areia e olha a azulidade preciosa. Não foi esta quem o roubou, camarada. Não o olhe assim. O mar está tímido e ocupado comigo.

M’en vais. Dia escurecendo, automóvel chegando e estudantes do Sacre-couer percorrendo a superfície. Vivendo no gerúndio, presenciado o particípio, que eu esteja no subjuntivo. Amém.

domingo, 27 de abril de 2008

Post 40: Tributo às Baratas.



A quinta história chama-se “Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia”. Começa assim: queixei-me das baratas.

Sim, mas queixo-me mesmo da ausência delas. Após ostentar secretamente a placa de virtude da dedetização, sinto falta das baratas. Elas, que davam uma importância a mim mesma, – o assassinato é um ato de glória de per si - não existem mais. E, por conseqüência, meu ritual também não.

Mesmo um mestre Pangloss Voltairiano soprando ao meu ouvido que tudo está bem, tudo vai bem, tudo vai da melhor maneira possível, eu tenho que discordar. Necessito das baratas.

É porque tive uma epifania de trancendência do amor nesse período em que dedetizei minha casa e fui pra Polinésia. 3 dias. Uma tríade: pena-compaixão-amor. Sinto amor pelas baratas, estas que me davam um objetivo noturno, que estabeleciam uma relação entre organismos vivos e tremeluzentes entre o eu e suas massas brancas.

Tirei um pedaço de minha casa, de meu corpo, de minha rotina. A insônia minha de cada dia parece ter se intensificado. A culpa invade minhas sinapses e incorpora à serotonina. Matei baratas, sou assassina e virei uma estátua. Calcifiquei-me e a asfixia toma conta de minhas noites. Ah, as noites, a batida do mar há 50 metros de minha janela, insônia e...baratas. As baratas que não existem mais, ectoplasmas baratianos cercam o meu corpo. Ou pior: a minha mente. Vejo tudo marrom. Escuro. Baratas. Morte das baratas. Insônia. Culpa pecaminosa de uma escrivinhadora.

Não, Leibnitz. Agora não tem mais espaço para as suas utopias. Que François-Marie Arouet venha e o enterre com o seu cândido otimismo irônico. Em nome das memórias de minhas baratas mortas.


________________________________

O texto acima foi escrito a partir do conto "A Quinta História". LISPECTOR, Clarice. In: Felicidade Clandestina, p.147-150. Ed. Rocco, Rio de Janeiro - 1998.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Post 38: Ingressão de ar pra poesia.

Vivo no agora-único sob os alicerces de uma acústica tremeluzente. Três parâmetros engessam e dinamizam – por mais paradoxal que seja, mas sinto em informar que é assim – o correr de minhas substâncias: uma duração latina que altera os significados dos meus pressupostos; uma intensidade pseudo-permanente que contrasta e tonifica as minhas neurastenias – a partir de um nada aparente, vem de dentro, bem de dentro, um magma humano querendo vozear as sensações, gritá-las para logo depois enfraquecê-las por falta de pressão subglótica -; e, finalmente, uma freqüência fundamental advinda dessa minha tensão vocálica, gritálica.

Freqüência? Sei, sei. Sim, freqüência! Freqüêêêência... Não importa mais o sistema cartesiano de minhas entoações. Só se consegue perceber um jogo maniqueísta entre assertivas e indagações no cosmos infiel, visto sob um prisma de dois tipos: um agudo, estridente e outro grave, bem colado à superfície.

Como diria Lispector, não é a vida que superexige da gente, mas é a gente que superexige da vida. Seria cômodo internalizar a simplicidade vital, mas é da natureza humana tentar complicar os fatos para dar um quê de glória aos seus atos cotidianos. É instintivo do indivíduo de 32 cromossomos metaforizar a sua existência a uma freqüência fundamental, sentir-se, pelo menos uma vez na vida, o mais baixo componente de uma onda sonora complexa.

Aí você vem e me diz: “É. E?”. Tudo bem, Hertzinho metido à besta. A impossibilidade do ouvido humano de identificar essas suas freqüências formânticas me consola. As únicas coisas que eu posso fazer pela sua falta de entrelinhas e calcificação de derme são: abrir ao máximo a minha cavidade oral e bocejar, colocar a 180 graus o ápice da língua e me despedir de vossa senhoria com um arredondamento de lábios à distância, produzindo um ligeiro e irônico clique – muack.

Beijonãomeligaporquevocênãotemingressão

dearprapoesia.


terça-feira, 15 de abril de 2008

Post 35: Anseios pseudo-triviais.

Eu decidi que, a partir de hoje, a vermelhidão viva e tremeluzente das concretudes é minha. O ego precisa reconhecer-se, dar um grito na decrepitude de um dixhuitième vigésimo primeiro e decretar um novo século das luzes interior.

Sinto falta de personagentes. Somente enxergo ficções e ficcionalizações de tudo, todos e todrem. A inércia alheia perambula conosco, caracterizando ectoplasmas encostados.

Quero ver uma água viva, uma descoberta do mundo, uma veia no pulso e aprender a viver com a paixão segundo G.H. Descobrir os mistérios de coelhinhos pensantes, ter acesso às vidas íntimas de Lauras e sempre, sempiternamente, ficar perto de corações selvagens.

Seria interessante ter um processo de metamorfose, escrever uma carta ao pai perguntando o porquê do cosmos.

Preciso de um otimismo cândido e, ao mesmo tempo, de uma sensibilidade, um subjetivismo rousseauísta. De uma mímesis aristotélica que se faz necessária na divisão dos meus mundos, na minha linha khorismótica.

Uma rotina com espécies de Medéia ao meu lado para que os antídotos e a cura para as enfermidades pseudo-civilizatórias fossem descobertos, uma esfinge que me desse um enigma para ser desvendado na busca de meu próprio caráter Édipo, Macabéas me esperando em cartomantes e uma poética eterna nos meus poros precisam ser avidamente procurados, a fim de que um SER seja.

O que eu queria mesmo é poder chamar Platão pra um botequim e esfregar na pele o arrepio que os poetas causam naqueles que abrem as portas da sua Tróia interior.

Está bem, Morus. Vamos. Eu sei que é utopia. Mas é exatamente ela a responsável pela plasticidade dos dedos róseos da minha aurora.

Post 34: À espera de um devir.

, e essa tal de inspiração que alimenta um ciclo vicioso. Sim, vício. O escrivinhador absorve o externo para transformar em um interno, e o que vem de dentro entranha-se no que é de fora.

Inspira-se o ar, a melodia, o aroma, as cores. É um fluxo de sinestesia que constitui a arte. De dentro pra fora, de fora pra dentro; de fora pra dentro, de dentro pra fora.

Paro e percebo. Jogo pra mente. Isso, com o “o” aberto. Sinto um zuvoên sináptico, uma balbúrdia de neurônios querendo absorver. Inspirar para depois expirar. Traga-se a dinamicidade e a estaticidade para que um it ou um ed seja efetivado.

Eu queria escrever sobre baratas ou marimbondos. Mas o meu ato de tragar de hoje foi tão influenciado por uma quinta história clariceana que eu me sinto dedetizada. Não há. Não há em função de uma ausência. Não há devido ao um não haver.

Estou estática, sem ações determinantes nem ao menos determinadas. No atual momento, preservo-me em um dos melhores mundos possíveis. E não adianta surgir um ser voltairiano querendo me ironizar com um Pangloss da vida.

Nesse instante, sirvo a Leibniz. Por pouco tempo, eu sei. As dramatizações e reclamações são inerentes ao ser humano. Não serei, agora, exceção.

Recolho-me no meu El Dorado à espera de um devir. Com licença.

domingo, 13 de abril de 2008

Post 33: Sobre Bette Davis

A filmografia de Bette Davis percorre todas as possibilidades de estilos cinematográficos hollywoodianos. De magníficos dramas como “Vitória Amarga”, perpassando textos clássicos como “Dama por um Dia”, a filmes de grandiosidade imensurável para o cinema americano e mundial (“A Malvada”, “Baby Jane”, “Jezebel”, só pra citar alguns).

Ao contrário de grande parte das estrelas da época, venceu majoritariamente pelo talento (já que a beleza, comparada a outras atrizes, lhe faltava); não foi Scarlett O’Hara, mas foi a genial Margo Channing. Papel fundamental também teve na relação entre os estúdios e os artistas: não se prendeu a contratos que levavam freqüentemente ao fim da carreira. Sua independência a libertava da obrigatoriedade de atuar em filmes determinados pelos estúdios (que eu saiba só Garbo tinha suas decisões acatadas... e olhe lá) e permitia a escolha de papéis com o qual mais se identificasse.

Quando ninguém mais a queria, a coragem lhe fez oferecer seus serviços em um anúncio de jornal. O mesmo sentimento foi combustível que a levou a contracenar em “Baleias de Agosto”, pouco antes de sua morte. Não escondia seus desafetos (Joan Crawford e Faye Dunaway, por exemplo), nem a vontade de ter ganhado, segundo ela, “pelo menos mais três Oscar”, além dos dois que já tinha.

De uma carreira de mais de 60 anos, milhares de fãs, uma música em sua homenagem, filmes que abarcam uma variedade imensa de assuntos e uma personalidade tão forte que ainda é possível ouvir seu ressoar. E no centenário do seu nascimento, uma infinidade de matérias e crônicas vem saudar aquela que talvez seja a maior atriz de todos os tempos (eu disse “talvez”). Nada mais merecido.

A adúltera, a assassina, a mendiga, a estrela de cinema esquecida, a mãe cruel... O melhor papel de Ruth Elizabeth Davis foi, definitivamente, o de Bette Davis. Durante 82 anos.

Obs.: mais filmes dela precisam ser lançados em DVD.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Post 28: Sobre os dias (tardes e almoços) com a Martina.

Deixando as divagações de lado...

A amizade está nas demonstrações mais simples e espontâneas de afeto. É bom não ter momentos específicos e prezar todo o tempo que ela esteve (está e estará) presente. Acho que uma boa amizade consiste nisso: a validade de tudo (até as povas e o latim).

Perguntando qual a próxima aula ou rindo do "velhinho que morreu na própria cama" e do pobre despojado, os dias passam com uma rapidez que traz saudade da lentidão do ócio. Saudade prematura. Saudade da "família": tão díspares e tão complementares. E eu achando que tinha encontrado todas as pessoas fundamentais na minha vida (pensando como um velho, sempre), sem imaginar a "reviravolta" de pensamento e atitude que uma faculdade (que não estava nos meus planos) faria em mim. O mérito da mudança não é só da Martina, mas das outras meninas também... elas ficam pra outro dia. Today is Tina's day.

"Retribuição" não é a palavra certa e muito menos o motivo de eu escrever sobre/para ela hoje. Mas sabe quando alguém consegue fazer seu dia feliz sem querer? Hoje ela me fez feliz, e nem sei se percebeu como o que ela disse me afetou de maneira positiva (aposto que não). Em meio a toda bobeira e a risada de todos os dias, há uma sutileza e uma pureza de sentimentos e demonstrações que não se limitam a palavras e não buscam qualquer interesse. Ela simplesmente está ali: tomando café ou andando avoada pelos corredores.

Ah... Martina, obrigado! Amo você.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Post 27: Rotina letrada de uma Póvoa.

Pegando o gancho do post sobre rotina do Guilherme:


Os dias naquela faculdade de Letras são realmente pitorescos e encantadores.

Às segundas, lapidar a alma e o cérebro com Constança Hertz e suas comparações magistrais entre história, arte e literatura e aplaudir de pé a experiência e a docilidade latina da Cecília Araújo.

Às terças, acordar ao som imaginário de “La vie em rose”, piafiana, para encontrar a azulidade preciosa da Juliana Novo e absorver, agradavelmente, – sim, lingüística tornou-se algo suportável pra mim – a docilidade ocular de Chomsky e apreender a classe e inteligência sublimes da Ana Alencar durante 4 tempos.

Às quartas, tentar não se desesperar com Silvia Rodrigues. Esse é o lema do Português 3: “Laissez-faire, Laissez-passet, le monde va de lui même.” Acho que só sendo muito iluminista pra tentar não se impacientar com tal suplício. O que alivia é a amabilidade e simpatia da Silvia. Caso contrário, seriam encontrados vários corpos no vão do terceiro andar do bloco H.

Às quintas, novamente ouço imaginariamente Edith Piaf me acordando: a claridade acompanhando o giz na H-212.

Às sextas, a minha paixãozinha de cada dia: Grego. Absolutamente sem adjetivos existentes nos princípios da Língua Portuguesa para caracterizá-lo.

Aulas à parte, O CORREDOR. É um tal de sincretismo, samba-do-crioulo-doido. Encontra-se latinistas, literatos, lingüistas, estudantes de hebraico, árabe, inglês, alemão e blablabla. Danielle Corpas tomando café e fumando seu cigarrinho, Eleonora Ziller com cara de quem já tá preparada pra revolução, Alberto Pucheu e seu inseparável Caio Meira com cara de quem tá esperando Platão reencarnar, Dinah Callou com aquela expressão blasé de “humpf! Quem são vocês, meros graduandos inúteis?”, Maluh Guimarães sendo alvo dos paparazzi, enfim, a Letras.

Guilherme sendo odiado, eu sendo sei-lá-o-quê, adorável Martina com cara de “ahn? Onde estou?”, Maline filosofando maravilhosamente, e Juliana com raiva de uma certa latinista cruel (assino embaixo).

Ah! E como poderia esquecer de CC? Aquela que transformou o primeiro período em uma incógnita, em um desespero coletivo.

Mas o que mais dá cor àquela faculdade é o pão-de-queijo com cafezinho pingado. Fato consumado. E, é claro, a fumaça nicotinada da minha estimada Danielle Corpas. Eterna. Diva. Literata.

Post 26: Morpheu + edredon = diazinho este.

Esse dia nasceu pra ser curtinho. Mas ele relutava em relação a sua aparente correria temporal. A chuva facilitava o processo, era o input de tal ilusão. O dia nasceu pra ter vinte e quatro horas, mas esse era diferente. Sensação corrida e inerte.

Esse dia era acinzentado. Gosto de guarda-chuva. Cheiro de água no asfalto. Pessoas estampando na face o desânimo inerente ao espírito pluvial das correntezas sonolentas matutinas.

O ponto-de-ônibus com seus braços cruzados. Pernas tensionadas. Um friozinho psicológico batia, sem explicações. Estava abafado, mas a chuva transforma e transvia sensações.

Hoje é dia de amálgama de Morpheu com edredon. E de cronicazinha curta. Só pra tirar o excesso de divagações dessas minhas sinapses infiéis.

sábado, 22 de março de 2008

Post 25: Sobre convicções, dúvidas, riscos e piedade.

Convicções são suficientes para se calcar um objetivo, e tê-lo como meta. Dúvidas são suficientes para que essa jornada se torne menos impossível (e até mesmo menos ingrata). Mas até que ponto chegar para que suas ideologias sejam preservadas e, assim, evitar um ideal estático e plástico?

*

É fácil viver no limiar e se fechar a qualquer risco, negando a validade de propósitos e aspirações que não sejam ou que apenas não comunguem da mesma raiz lógica dos seus. Viver temerariamente me assusta: a possibilidade da perda e da falta de opções são as razões de uma insônia constante. Evitar as pedras do caminho pode ser a opção mais cômoda, mas não é a mais acertada (essas metáforas-clichê são odiosas, mas...).

A máxima de que quem mais arrisca mais ganha, e por conseqüência sente menos as perdas, é inegável. “Arriscar” é uma banalidade hoje em dia: virou desculpa para determinados atos e, em relação a alguns dogmas, perdeu o caráter social e libertário. Duas mulheres, por exemplo, com papéis familiares totalmente opostos (uma é dona-de-casa e a outra independe do marido), lidarão de maneira diferente com uma traição: a primeira perde tudo (mesmo que ela permaneça no relacionamento) já que apostou suas fichas em apenas um aspecto dentre infinitas possibilidades de “como se viver”. Previsível.

O X de toda a história (e do exemplo fraco) é a conduta da segunda mulher: ter estabilidade financeira e ter sido traída não faz dela uma guerreira invencível (mesmo que ela acredite nisso) cujas culpas e atos irresponsáveis serão perdoados. Sem fazer nenhuma generalização, é inerente ao homem a busca por piedade quando se está “por baixo”. Piedade, porém, não é liberdade (eu ia fazer uma explicação bonita sobre o sufixo -dade... mas deixa pra lá!).

Simplificando a idéia complicada: ser livre ou não ter nada (aparentemente, as únicas opções) levam a loucura. O mundo é dos insanos.

*

Seguir em frente ou mudar radicalmente os planos? Dúvida.

terça-feira, 18 de março de 2008

Post 24: Sobre rotina e saudade.

E as aulas e a rotina voltaram: esnobar lingüística, odiar latim, comer no CETEM sem motivo (e também o macarrão do CT), rir, encontrar a Dostô na biblioteca, falar mal dos banheiros, topar com a Callou, colar, ver a Ju assitir Latim mais uma vez, venerar a Eleonora e ouvir a Bia e a Martina falarem do Pucheu. Endeusar a Malu, ler “Gêneros Literários” (hahahahaha), falar de cinema, ir de ônibus com a Pamela, voltar de ônibus com a Pamela, ouvir a Póvoa falar de seus amores e decepções no corredor, entrar em qualquer aula, aproveitar o breakfast dos congressos que nós não pagamos nem assistimos (saudade dos da anglo-germânica), dizer que a CC tá gorda, inventar apelidos, encontrar a Marilyn, comer pão de queijo e tomar café, não saber onde estão meus filmes (é verdade que a maioria deles está com a Luciana), ter papos televisivos com a Maline, dormir em qualquer canto, falar de amor, falar dos outros, falar da vida, falar dos planos, falar de tudo.

Saudade dessa rotina que um dia vai ser só saudade.


___________________________________________

Nada muito interessante pra dizer...

segunda-feira, 17 de março de 2008

Post 23: Distração mais-que-perfeita.

E tudo começou por uma distração. Não havia algo para ser feito, o tempo seria desperdiçado de uma forma imperdoável. E não seria um tempo de duas horas, mas sim um de cinco meses.

Uni-du-ni-tê: eu escolheria uma das duas salas. Optei pela segunda. Meu sexto-sentido, como sempre, sendo meu companheiro indispensável de todos os dias.

E lá estava. A apresentação, eu havia perdido. Não sabia, inicialmente, o nome, de onde vinha, nada. Nem dali eu era. Estava me comportando como um ectoplasma de uma amiga minha. Depois as informações foram chegando, paulatinamente. Fiquei sabendo, inclusive, que Ela tinha facilidade de armazenar cálcio no corpo e, por isso, tinha de beber muita água. Agora, sim, está explicada a origem daqueles olhos marítimos, capitolinos. Água que errou o caminho, resultando numa íris de pincel.

Meu cérebro só conseguia fazer sinapse direcionada: “SIGA, SIGA, SIGA; casa, casa, casa.” Precisava chegar logo em casa para fazer uma alteração não somente de Lingüística, e, sim, uma modificação urgente de dínamo: é possível aliar prazer a uma disciplina que era, inicialmente, o calo do meu pé. Seriam cinco longos ou curtos meses, dependendo do ponto crucial da situação: Ela ou ela.

As abordagens eram feitas de uma forma magistral. Sim, a magistra estava transformando o meu ponto fraco acadêmico em uma abstração sublime. Soubliá: pontada. Era só isso o que eu sentia. Pontada.

A mousa de Chomsky, a Helena gerativista, a Palas Atena da Sintaxe. O princípio saussureano da linearidade da língua agia como um aedo ou rapsodo, cantando poeticamente.

Foi assim: pá-pum! Enpathía. “Ad-miração” indo na onda da imutabilidade do signo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Post 21: Desapega, meu bem!

Se tem algo que me deixa com um certo vilipêndio nas costas, esse algo são as queixas em excesso. Sabe aquela pessoa que vive reclamando da sua vidinha medíocre, das pessoas ao seu redor, do comportamento da sociedade para com ela? Pois então, isso deixa os meus alicerces completamente desestruturados.


Uma pitada de raiva, contagem até 20 e, pra fechar, a minha tão amável companheira de todos os dias, juntamente com seu esposo: indiferença e desprezo.


E a gente se mostra indiferente, despreza, não dá trela, mas mesmo assim a criatura continua usando os seus antolhos, não enxergando a carinha irônica de “ah, jura? Coitadjénha!” do seu interlocutor tão interessado em conseguir uma vaguinha no céu. Acho que comprar indulgências seria mais fácil, hein.


“Era na verdade um olhar profundo e desesperadamente triste, com o qual traduzia um desespero calado, de certo modo irremediável e definitivo, que já se transformara em hábito e forma.”¹ É, queridinho. Hesse conseguiu entender você, tá vendo? Essa mania de queixar-se de tudo virou seu hábito, mon amour. Agora já que você viu que Hesse te entende, vá em um centro espírita e tenta contato com ele. Fica a dica, colega.

_____________________________

¹ “O lobo da estepe”. HESSE, Herman. Pág.19 Ed.Record.

Post 20: Sobre o Oscar e outros prêmios.

Alongando-me um pouco mais no assunto Oscar... Vou me ater nos prêmios de interpretação... há um bom tempo a Academia não é tão justa. Dizem que com a greve dos roteiristas, os votantes conseguiram, de fato, assistir aos filmes indicados.

Melhor ator foi barbada total: Daniel Day-Lewis é um dos melhores atores da atualidade e as interpretações dos seus concorrentes não chegam aos pés da dele (aliás, já devia ter outro por "Gangues de Nova York"). Só senti falta do Ryan Gosling, por "Lars and the Real Girl", entre os indicados. Barbada semelhante na categoria dos coadjuvantes: Javier ganhou, como esperado (também já devia ter um na estante, por "Antes do Anoitecer"). Uniu-se, nos dois casos, a vontade da Academia de se "desculpar" por um erro anterior e duas ótimas interpretações. Coincidência talvez.

A melhor atriz também foi premiada. E eu duvidei muito disso. Dava uma mão pela vitória da Julie Christie... veterana que volta em grande estilo ao cinema? Eles adoram. E ela já havia ganhado o Globo de Ouro e o SAG. Mas Marion mereceu. Em relação a categoria mais disputada do ano, atriz coadjuvante, TODAS as interpretações eram dignas de prêmio. E deu Tilda. "Barbada". Explicação: os votos se dividiram entre Cate Blanchett e Ruby Dee. Tilda correu por fora e cresceu nas últimas semanas ao ganhar o BAFTA. Eu cantei a bola... e acertei.

Discordo dos que defendem a não-validade de um prêmio como o da Academia. Sendo um prêmio americano, a tendência é que filmes/atores/produções americanos(as)/ingleses(as) vençam. Óbvio que existem falhas na história da premiação ("Rocky", Halle Berry, Martin Scorcese ganhando pelo filme errado, etc), mas o valor de um homenzinho dourado é de extrema importância na indústria hollywoodiana. Eles vão deixar de premiar Gwyneth Paltrow? Claro que não. E por quê? Ela precisa dele mais do que a Fernanda Montenegro, mesmo que não tenha o melhor desempenho. Ela vai ser responsável pela renovação do cinema americano. Como, com certeza, Kate Winslet e Julianne Moore ganharão um dia e Meryl Streep ganhará outro... Eles apostam, homenageiam e investem.

Em relação ao festival de Berlim e "Tropa de Elite": nada a se comemorar. A exaltação do filme seguiu a tendência do festival de premiar obras não-conhecidas. Tão político quanto o Oscar.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Post 19: Sobre idéias e pessoas.

Discórdia é ingrediente fundamental em qualquer relação inteligente. Pontos de vista divergentes, e uma discussão saudável, são importantes para crescer socialmente... não apenas como indivíduo pensante.

Atitudes rebarbativas me irritam. Muito. E ser rebarbativo não é sinônimo de discordar. Escuta e não compactua com determinada opinião simplesmente porque essa idéia atinge a você, ou algo/alguém que você gosta ou preza. Aliás, situação corriqueira: as pessoas, em geral, estão preparadas apenas para ouvir o que lhes é agradável. Não existe embasamento em sua opinião, e um discurso vago e sem profundidade acaba surgindo. Você pode achar natural... eu acho, de certa forma, estúpido.

Qual a graça de um mundo igual? Eu e você... pensando da mesma forma? Eu quero que você discorde de mim, pra que seus argumentos me tornem um pouco mais você, e eu não seja o mesmo ignorante, em determinado assunto, de uns minutos antes... eis a riqueza de se conviver.

Idéia meio vomitada... mas válida. Deve ser a hora...

Ah! A Marion Cotillard ganhou o Oscar... merecido. Enfim...

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Post 18: Prefiro isso a aquilo.

Prefiro dormir para não ver o tempo passar. Para não lembrar que há pessoas morrendo, que há pessoas nascendo para morrer e morrendo para viver.

Prefiro escrever para não esquecer que há pessoas analfabetas, cuja vontade de aprender ainda não morreu, mas a esperança e a probabilidade de sucesso despedem-se dia a dia.

Prefiro ver as cores do mundo para, se possível, enxergar pelos daltônicos, que até hoje não tiveram o prazer de apreciar o arco-íris e correr em sua direção para tentar achar um pote de ouro, mas que, infelizmente, não fará com que sua visão seja perfeita.

Prefiro cansar-me correndo ao invés de não me cansar porque não tenho pernas.

Prefiro a fantasia à realidade. Prefiro dormir para não ver injustiça. Prefiro escrever para comunicar àqueles que não sabem. Prefiro ver as cores do Brasil para ser patriota. Prefiro cansar-me correndo para chegar logo em casa e voltar a dormir.