sábado, 17 de maio de 2008
Post 43: Sumiços são normais, mas...
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
(Hilda Hilst)
terça-feira, 22 de abril de 2008
Post 38: Ingressão de ar pra poesia.
Vivo no agora-único sob os alicerces de uma acústica tremeluzente. Três parâmetros engessam e dinamizam – por mais paradoxal que seja, mas sinto em informar que é assim – o correr de minhas substâncias: uma duração latina que altera os significados dos meus pressupostos; uma intensidade pseudo-permanente que contrasta e tonifica as minhas neurastenias – a partir de um nada aparente, vem de dentro, bem de dentro, um magma humano querendo vozear as sensações, gritá-las para logo depois enfraquecê-las por falta de pressão subglótica -; e, finalmente, uma freqüência fundamental advinda dessa minha tensão vocálica, gritálica.
Freqüência? Sei, sei. Sim, freqüência! Freqüêêêência... Não importa mais o sistema cartesiano de minhas entoações. Só se consegue perceber um jogo maniqueísta entre assertivas e indagações no cosmos infiel, visto sob um prisma de dois tipos: um agudo, estridente e outro grave, bem colado à superfície.
Como diria Lispector, não é a vida que superexige da gente, mas é a gente que superexige da vida. Seria cômodo internalizar a simplicidade vital, mas é da natureza humana tentar complicar os fatos para dar um quê de glória aos seus atos cotidianos. É instintivo do indivíduo de 32 cromossomos metaforizar a sua existência a uma freqüência fundamental, sentir-se, pelo menos uma vez na vida, o mais baixo componente de uma onda sonora complexa.
Aí você vem e me diz: “É. E?”. Tudo bem, Hertzinho metido à besta. A impossibilidade do ouvido humano de identificar essas suas freqüências formânticas me consola. As únicas coisas que eu posso fazer pela sua falta de entrelinhas e calcificação de derme são: abrir ao máximo a minha cavidade oral e bocejar, colocar a 180 graus o ápice da língua e me despedir de vossa senhoria com um arredondamento de lábios à distância, produzindo um ligeiro e irônico clique – muack.
Beijonãomeligaporquevocênãotemingressão
dearprapoesia.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Post 37: Desabafo-rápido
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferido,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser,
e não quero me encontrar,
que estou dentro de um navio,
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.
Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.
Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis quem não me quis."
(Cecília Meireles)
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O mundo (o meu, pelo menos) anda girando em torno de preocupações acadêmicas, histórias alheias e vontades roubadas. É um buscar o que buscar incessante. Perdendo o hoje com a certeza de que o amanhã será apenas mais um dia.
Sorte que nunca é tarde para voltar atrás e recolher o que foi perdido. Salve!
Sem melancolias...
terça-feira, 15 de abril de 2008
Post 35: Anseios pseudo-triviais.
Eu decidi que, a partir de hoje, a vermelhidão viva e tremeluzente das concretudes é minha. O ego precisa reconhecer-se, dar um grito na decrepitude de um dixhuitième vigésimo primeiro e decretar um novo século das luzes interior.
Sinto falta de personagentes. Somente enxergo ficções e ficcionalizações de tudo, todos e todrem. A inércia alheia perambula conosco, caracterizando ectoplasmas encostados.
Quero ver uma água viva, uma descoberta do mundo, uma veia no pulso e aprender a viver com a paixão segundo G.H. Descobrir os mistérios de coelhinhos pensantes, ter acesso às vidas íntimas de Lauras e sempre, sempiternamente, ficar perto de corações selvagens.
Seria interessante ter um processo de metamorfose, escrever uma carta ao pai perguntando o porquê do cosmos.
Preciso de um otimismo cândido e, ao mesmo tempo, de uma sensibilidade, um subjetivismo rousseauísta. De uma mímesis aristotélica que se faz necessária na divisão dos meus mundos, na minha linha khorismótica.
Uma rotina com espécies de Medéia ao meu lado para que os antídotos e a cura para as enfermidades pseudo-civilizatórias fossem descobertos, uma esfinge que me desse um enigma para ser desvendado na busca de meu próprio caráter Édipo, Macabéas me esperando em cartomantes e uma poética eterna nos meus poros precisam ser avidamente procurados, a fim de que um SER seja.
O que eu queria mesmo é poder chamar Platão pra um botequim e esfregar na pele o arrepio que os poetas causam naqueles que abrem as portas da sua Tróia interior.
Está bem, Morus. Vamos. Eu sei que é utopia. Mas é exatamente ela a responsável pela plasticidade dos dedos róseos da minha aurora.
Post 34: À espera de um devir.
, e essa tal de inspiração que alimenta um ciclo vicioso. Sim, vício. O escrivinhador absorve o externo para transformar em um interno, e o que vem de dentro entranha-se no que é de fora.
Inspira-se o ar, a melodia, o aroma, as cores. É um fluxo de sinestesia que constitui a arte. De dentro pra fora, de fora pra dentro; de fora pra dentro, de dentro pra fora.
Paro e percebo. Jogo pra mente. Isso, com o “o” aberto. Sinto um zuvoên sináptico, uma balbúrdia de neurônios querendo absorver. Inspirar para depois expirar. Traga-se a dinamicidade e a estaticidade para que um it ou um ed seja efetivado.
Eu queria escrever sobre baratas ou marimbondos. Mas o meu ato de tragar de hoje foi tão influenciado por uma quinta história clariceana que eu me sinto dedetizada. Não há. Não há em função de uma ausência. Não há devido ao um não haver.
Estou estática, sem ações determinantes nem ao menos determinadas. No atual momento, preservo-me em um dos melhores mundos possíveis. E não adianta surgir um ser voltairiano querendo me ironizar com um Pangloss da vida.
Nesse instante, sirvo a Leibniz. Por pouco tempo, eu sei. As dramatizações e reclamações são inerentes ao ser humano. Não serei, agora, exceção.
Recolho-me no meu El Dorado à espera de um devir. Com licença.
domingo, 13 de abril de 2008
Post 31: Não escapo.
I
Fica com meu silêncio, então. Guarda num baú velho, põe tuas fotos sobre a minha boca te assegurando que eu me cale. Esquece tua piedade. Engole minha dor vaga, e deixa vaga uma lacuna nessa caixa de madeira pra tua crueldade.
II
Fica com minha esperança, então. Guarda no teu peito essa memória, põe tua mão sobre meus olhos te assegurando que eu não te veja. Esquece tua moral. Engole minha vontade lúcida, e deixa lúcida nessa caixa pulsante tua vontade.
III
Fico com o teu gosto na minha boca e com teu futuro nos meus olhos.
domingo, 6 de abril de 2008
Post 30: Sobre tentativas.
Brilha um ponto por entre minha janela
que me lembra da saudade de ter saudade
dos caminhos sinuosos da tua boca
e das vontades tão minuciosamente sonhadas.
Brilha um ponto por entre minha janela
que me lembra de te ser fiel por toda a eternidade,
que me faz inerte ao mundo e as vontades do destino.
De sonhar, querida, sobrou o pó sobre teus objetos esquecidos.
sobrou tuas cartas queimadas
e os fragmentos de alguém que sonhava.
sobrou teus erros
e tua vontade relutante de fingir ser.
Hoje, vivo em lapsos.
Lembro, não sinto saudade.
Quanto a ti: pensa-te. E aceita.
quinta-feira, 6 de março de 2008
Post 22: Sobre Poesia (II)
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
Fernando Pessoa
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Para uma grande professora!
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Post 18: Prefiro isso a aquilo.
Prefiro dormir para não ver o tempo passar. Para não lembrar que há pessoas morrendo, que há pessoas nascendo para morrer e morrendo para viver.
Prefiro escrever para não esquecer que há pessoas analfabetas, cuja vontade de aprender ainda não morreu, mas a esperança e a probabilidade de sucesso despedem-se dia a dia.
Prefiro ver as cores do mundo para, se possível, enxergar pelos daltônicos, que até hoje não tiveram o prazer de apreciar o arco-íris e correr em sua direção para tentar achar um pote de ouro, mas que, infelizmente, não fará com que sua visão seja perfeita.
Prefiro cansar-me correndo ao invés de não me cansar porque não tenho pernas.
Prefiro a fantasia à realidade. Prefiro dormir para não ver injustiça. Prefiro escrever para comunicar àqueles que não sabem. Prefiro ver as cores do Brasil para ser patriota. Prefiro cansar-me correndo para chegar logo em casa e voltar a dormir.
domingo, 27 de janeiro de 2008
Post 11: Doces epifanias clariceanas.
Palavras são incompetentes para caracterizar suas virtudes. A inteligência deslumbrante que afaga e embeleza calcifica a sua figura em minhas sinapses ocitocinescas. A vida que oferecia tanta filosofia no papel também a tirara filosoficamente do tal estágio vital.
Os olhos oblíquos esverdeavam os meus, o matiz claro e eslovaco da pele clareava o foco que eu tinha em um horizonte qualquer – tão obscuro e sem nitidez, opaco antes da sua chegada. Sim, comecei a viver aos treze anos a partir de um processo macabéico e do estopim das suas palavras tremeluzentes.
O tempo. Alguns anos tiraram-na da minha vida e ficou a eterna indagação de quando e onde a encontrarei. Por enquanto, absorvo os vestígios e resquícios da forma da letra e do eco da quarta dimensão, essa eterna traiçoeira. Ato voluntarioso dos vocábulos. É assim que estão agora. Empacaram e me deixaram só, aqui, no meio desse universo lingüístico infiel.
A sua sabedoria é sobre-humana, esplêndida, divina e divinizada. Clarinha, Clara, Clarice – puramente um mito carnalizado, pouco captado pelos indivíduos assaz dérmicos.
Sobrenome de diamante. Ao mesmo tempo belo, duro e delicado. Latino: “Flor de Lis”. Lispector.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Post 7: Sobre poesia (I)
Canção
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
Cecília Meireles.
hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.
Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.
Lya Luft
Como pode ser gostar de alguém
E esse tal alguém não ser seu
Fico desejando nós gastando o mar
Pôr do sol, postal, mais ninguém
Peço tanto a Deus
Para esquecer
Mas só de pedir me lembro
Minha linda flor
Meu jasmim será
Meus melhores beijos serão seus
Sinto que você é ligado a mim
Sempre que estou indo, volto atrás
Estou entregue a ponto de estar sempre só
Esperando um sim ou nunca mais
É tanta graça lá fora passa
O tempo sem você
Mas pode sim
Ser sim amado e tudo acontecer
Sinto absoluto o dom de existir, não há solidão, nem pena
Nessa doação, milagres do amor
Sinto uma extensão divina
É tanta graça lá fora passa
O tempo sem você
Mas pode sim
Ser sim amado e tudo acontecer
Quero dançar com você
Dançar com você
Quero dançar com você
Dançar com você
Vanessa da Mata
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