quarta-feira, 26 de março de 2008

Post 26: Morpheu + edredon = diazinho este.

Esse dia nasceu pra ser curtinho. Mas ele relutava em relação a sua aparente correria temporal. A chuva facilitava o processo, era o input de tal ilusão. O dia nasceu pra ter vinte e quatro horas, mas esse era diferente. Sensação corrida e inerte.

Esse dia era acinzentado. Gosto de guarda-chuva. Cheiro de água no asfalto. Pessoas estampando na face o desânimo inerente ao espírito pluvial das correntezas sonolentas matutinas.

O ponto-de-ônibus com seus braços cruzados. Pernas tensionadas. Um friozinho psicológico batia, sem explicações. Estava abafado, mas a chuva transforma e transvia sensações.

Hoje é dia de amálgama de Morpheu com edredon. E de cronicazinha curta. Só pra tirar o excesso de divagações dessas minhas sinapses infiéis.

sábado, 22 de março de 2008

Post 25: Sobre convicções, dúvidas, riscos e piedade.

Convicções são suficientes para se calcar um objetivo, e tê-lo como meta. Dúvidas são suficientes para que essa jornada se torne menos impossível (e até mesmo menos ingrata). Mas até que ponto chegar para que suas ideologias sejam preservadas e, assim, evitar um ideal estático e plástico?

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É fácil viver no limiar e se fechar a qualquer risco, negando a validade de propósitos e aspirações que não sejam ou que apenas não comunguem da mesma raiz lógica dos seus. Viver temerariamente me assusta: a possibilidade da perda e da falta de opções são as razões de uma insônia constante. Evitar as pedras do caminho pode ser a opção mais cômoda, mas não é a mais acertada (essas metáforas-clichê são odiosas, mas...).

A máxima de que quem mais arrisca mais ganha, e por conseqüência sente menos as perdas, é inegável. “Arriscar” é uma banalidade hoje em dia: virou desculpa para determinados atos e, em relação a alguns dogmas, perdeu o caráter social e libertário. Duas mulheres, por exemplo, com papéis familiares totalmente opostos (uma é dona-de-casa e a outra independe do marido), lidarão de maneira diferente com uma traição: a primeira perde tudo (mesmo que ela permaneça no relacionamento) já que apostou suas fichas em apenas um aspecto dentre infinitas possibilidades de “como se viver”. Previsível.

O X de toda a história (e do exemplo fraco) é a conduta da segunda mulher: ter estabilidade financeira e ter sido traída não faz dela uma guerreira invencível (mesmo que ela acredite nisso) cujas culpas e atos irresponsáveis serão perdoados. Sem fazer nenhuma generalização, é inerente ao homem a busca por piedade quando se está “por baixo”. Piedade, porém, não é liberdade (eu ia fazer uma explicação bonita sobre o sufixo -dade... mas deixa pra lá!).

Simplificando a idéia complicada: ser livre ou não ter nada (aparentemente, as únicas opções) levam a loucura. O mundo é dos insanos.

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Seguir em frente ou mudar radicalmente os planos? Dúvida.

terça-feira, 18 de março de 2008

Post 24: Sobre rotina e saudade.

E as aulas e a rotina voltaram: esnobar lingüística, odiar latim, comer no CETEM sem motivo (e também o macarrão do CT), rir, encontrar a Dostô na biblioteca, falar mal dos banheiros, topar com a Callou, colar, ver a Ju assitir Latim mais uma vez, venerar a Eleonora e ouvir a Bia e a Martina falarem do Pucheu. Endeusar a Malu, ler “Gêneros Literários” (hahahahaha), falar de cinema, ir de ônibus com a Pamela, voltar de ônibus com a Pamela, ouvir a Póvoa falar de seus amores e decepções no corredor, entrar em qualquer aula, aproveitar o breakfast dos congressos que nós não pagamos nem assistimos (saudade dos da anglo-germânica), dizer que a CC tá gorda, inventar apelidos, encontrar a Marilyn, comer pão de queijo e tomar café, não saber onde estão meus filmes (é verdade que a maioria deles está com a Luciana), ter papos televisivos com a Maline, dormir em qualquer canto, falar de amor, falar dos outros, falar da vida, falar dos planos, falar de tudo.

Saudade dessa rotina que um dia vai ser só saudade.


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Nada muito interessante pra dizer...

segunda-feira, 17 de março de 2008

Post 23: Distração mais-que-perfeita.

E tudo começou por uma distração. Não havia algo para ser feito, o tempo seria desperdiçado de uma forma imperdoável. E não seria um tempo de duas horas, mas sim um de cinco meses.

Uni-du-ni-tê: eu escolheria uma das duas salas. Optei pela segunda. Meu sexto-sentido, como sempre, sendo meu companheiro indispensável de todos os dias.

E lá estava. A apresentação, eu havia perdido. Não sabia, inicialmente, o nome, de onde vinha, nada. Nem dali eu era. Estava me comportando como um ectoplasma de uma amiga minha. Depois as informações foram chegando, paulatinamente. Fiquei sabendo, inclusive, que Ela tinha facilidade de armazenar cálcio no corpo e, por isso, tinha de beber muita água. Agora, sim, está explicada a origem daqueles olhos marítimos, capitolinos. Água que errou o caminho, resultando numa íris de pincel.

Meu cérebro só conseguia fazer sinapse direcionada: “SIGA, SIGA, SIGA; casa, casa, casa.” Precisava chegar logo em casa para fazer uma alteração não somente de Lingüística, e, sim, uma modificação urgente de dínamo: é possível aliar prazer a uma disciplina que era, inicialmente, o calo do meu pé. Seriam cinco longos ou curtos meses, dependendo do ponto crucial da situação: Ela ou ela.

As abordagens eram feitas de uma forma magistral. Sim, a magistra estava transformando o meu ponto fraco acadêmico em uma abstração sublime. Soubliá: pontada. Era só isso o que eu sentia. Pontada.

A mousa de Chomsky, a Helena gerativista, a Palas Atena da Sintaxe. O princípio saussureano da linearidade da língua agia como um aedo ou rapsodo, cantando poeticamente.

Foi assim: pá-pum! Enpathía. “Ad-miração” indo na onda da imutabilidade do signo.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Post 22: Sobre Poesia (II)

Aniversário


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!



Fernando Pessoa


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Para uma grande professora!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Post 21: Desapega, meu bem!

Se tem algo que me deixa com um certo vilipêndio nas costas, esse algo são as queixas em excesso. Sabe aquela pessoa que vive reclamando da sua vidinha medíocre, das pessoas ao seu redor, do comportamento da sociedade para com ela? Pois então, isso deixa os meus alicerces completamente desestruturados.


Uma pitada de raiva, contagem até 20 e, pra fechar, a minha tão amável companheira de todos os dias, juntamente com seu esposo: indiferença e desprezo.


E a gente se mostra indiferente, despreza, não dá trela, mas mesmo assim a criatura continua usando os seus antolhos, não enxergando a carinha irônica de “ah, jura? Coitadjénha!” do seu interlocutor tão interessado em conseguir uma vaguinha no céu. Acho que comprar indulgências seria mais fácil, hein.


“Era na verdade um olhar profundo e desesperadamente triste, com o qual traduzia um desespero calado, de certo modo irremediável e definitivo, que já se transformara em hábito e forma.”¹ É, queridinho. Hesse conseguiu entender você, tá vendo? Essa mania de queixar-se de tudo virou seu hábito, mon amour. Agora já que você viu que Hesse te entende, vá em um centro espírita e tenta contato com ele. Fica a dica, colega.

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¹ “O lobo da estepe”. HESSE, Herman. Pág.19 Ed.Record.

Post 20: Sobre o Oscar e outros prêmios.

Alongando-me um pouco mais no assunto Oscar... Vou me ater nos prêmios de interpretação... há um bom tempo a Academia não é tão justa. Dizem que com a greve dos roteiristas, os votantes conseguiram, de fato, assistir aos filmes indicados.

Melhor ator foi barbada total: Daniel Day-Lewis é um dos melhores atores da atualidade e as interpretações dos seus concorrentes não chegam aos pés da dele (aliás, já devia ter outro por "Gangues de Nova York"). Só senti falta do Ryan Gosling, por "Lars and the Real Girl", entre os indicados. Barbada semelhante na categoria dos coadjuvantes: Javier ganhou, como esperado (também já devia ter um na estante, por "Antes do Anoitecer"). Uniu-se, nos dois casos, a vontade da Academia de se "desculpar" por um erro anterior e duas ótimas interpretações. Coincidência talvez.

A melhor atriz também foi premiada. E eu duvidei muito disso. Dava uma mão pela vitória da Julie Christie... veterana que volta em grande estilo ao cinema? Eles adoram. E ela já havia ganhado o Globo de Ouro e o SAG. Mas Marion mereceu. Em relação a categoria mais disputada do ano, atriz coadjuvante, TODAS as interpretações eram dignas de prêmio. E deu Tilda. "Barbada". Explicação: os votos se dividiram entre Cate Blanchett e Ruby Dee. Tilda correu por fora e cresceu nas últimas semanas ao ganhar o BAFTA. Eu cantei a bola... e acertei.

Discordo dos que defendem a não-validade de um prêmio como o da Academia. Sendo um prêmio americano, a tendência é que filmes/atores/produções americanos(as)/ingleses(as) vençam. Óbvio que existem falhas na história da premiação ("Rocky", Halle Berry, Martin Scorcese ganhando pelo filme errado, etc), mas o valor de um homenzinho dourado é de extrema importância na indústria hollywoodiana. Eles vão deixar de premiar Gwyneth Paltrow? Claro que não. E por quê? Ela precisa dele mais do que a Fernanda Montenegro, mesmo que não tenha o melhor desempenho. Ela vai ser responsável pela renovação do cinema americano. Como, com certeza, Kate Winslet e Julianne Moore ganharão um dia e Meryl Streep ganhará outro... Eles apostam, homenageiam e investem.

Em relação ao festival de Berlim e "Tropa de Elite": nada a se comemorar. A exaltação do filme seguiu a tendência do festival de premiar obras não-conhecidas. Tão político quanto o Oscar.