quinta-feira, 17 de abril de 2008

Post 36: Sobre horóscopo, acreditar e Gil.

Sol na casa 7, lua na casa 1

17/04 (hoje) às 19h23 a 20/04 às 17h57

Eis que a Lua torna-se cheia, formando uma oposição ao Sol, no eixo 1/7 do seu mapa astrológico, entre os dias 17/04 (hoje) às 19h23 e 20/04 às 17h57, Guilherme. Estes serão dias delicados, onde a palavra-chave é ajuste dos relacionamentos: quem sou eu e quem é o outro? Até que ponto eu vejo o outro como outra pessoa, até que ponto perco a objetividade e o vejo como um espelho de mim? Todos nós tendemos a projetar coisas de nossas almas sobre as outras pessoas, em maior ou menor grau, e em alguns momentos específicos. Convém, Guilherme, neste momento, você avaliar melhor se aquilo que você tanto critica ou elogia em seu próximo está realmente no outro ou se é algo seu que se encontra projetado. Este pode ser um maravilhoso momento de complementaridade, em que surge alguém com as peças que faltavam para você montar um quebra-cabeças, mas pode também ser um momento de confronto, em que dolorosamente alguém lhe enfia o dedo na ferida.

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Seria ingenuidade acreditar em uma coisa que nunca deu certo antes?

De útil mesmo, essas coisas transcendentais sempre me lembram "Esotérico" do Gilberto Gil.



(Ai, ai... )

terça-feira, 15 de abril de 2008

Post 35: Anseios pseudo-triviais.

Eu decidi que, a partir de hoje, a vermelhidão viva e tremeluzente das concretudes é minha. O ego precisa reconhecer-se, dar um grito na decrepitude de um dixhuitième vigésimo primeiro e decretar um novo século das luzes interior.

Sinto falta de personagentes. Somente enxergo ficções e ficcionalizações de tudo, todos e todrem. A inércia alheia perambula conosco, caracterizando ectoplasmas encostados.

Quero ver uma água viva, uma descoberta do mundo, uma veia no pulso e aprender a viver com a paixão segundo G.H. Descobrir os mistérios de coelhinhos pensantes, ter acesso às vidas íntimas de Lauras e sempre, sempiternamente, ficar perto de corações selvagens.

Seria interessante ter um processo de metamorfose, escrever uma carta ao pai perguntando o porquê do cosmos.

Preciso de um otimismo cândido e, ao mesmo tempo, de uma sensibilidade, um subjetivismo rousseauísta. De uma mímesis aristotélica que se faz necessária na divisão dos meus mundos, na minha linha khorismótica.

Uma rotina com espécies de Medéia ao meu lado para que os antídotos e a cura para as enfermidades pseudo-civilizatórias fossem descobertos, uma esfinge que me desse um enigma para ser desvendado na busca de meu próprio caráter Édipo, Macabéas me esperando em cartomantes e uma poética eterna nos meus poros precisam ser avidamente procurados, a fim de que um SER seja.

O que eu queria mesmo é poder chamar Platão pra um botequim e esfregar na pele o arrepio que os poetas causam naqueles que abrem as portas da sua Tróia interior.

Está bem, Morus. Vamos. Eu sei que é utopia. Mas é exatamente ela a responsável pela plasticidade dos dedos róseos da minha aurora.

Post 34: À espera de um devir.

, e essa tal de inspiração que alimenta um ciclo vicioso. Sim, vício. O escrivinhador absorve o externo para transformar em um interno, e o que vem de dentro entranha-se no que é de fora.

Inspira-se o ar, a melodia, o aroma, as cores. É um fluxo de sinestesia que constitui a arte. De dentro pra fora, de fora pra dentro; de fora pra dentro, de dentro pra fora.

Paro e percebo. Jogo pra mente. Isso, com o “o” aberto. Sinto um zuvoên sináptico, uma balbúrdia de neurônios querendo absorver. Inspirar para depois expirar. Traga-se a dinamicidade e a estaticidade para que um it ou um ed seja efetivado.

Eu queria escrever sobre baratas ou marimbondos. Mas o meu ato de tragar de hoje foi tão influenciado por uma quinta história clariceana que eu me sinto dedetizada. Não há. Não há em função de uma ausência. Não há devido ao um não haver.

Estou estática, sem ações determinantes nem ao menos determinadas. No atual momento, preservo-me em um dos melhores mundos possíveis. E não adianta surgir um ser voltairiano querendo me ironizar com um Pangloss da vida.

Nesse instante, sirvo a Leibniz. Por pouco tempo, eu sei. As dramatizações e reclamações são inerentes ao ser humano. Não serei, agora, exceção.

Recolho-me no meu El Dorado à espera de um devir. Com licença.

domingo, 13 de abril de 2008

Post 33: Sobre Bette Davis

A filmografia de Bette Davis percorre todas as possibilidades de estilos cinematográficos hollywoodianos. De magníficos dramas como “Vitória Amarga”, perpassando textos clássicos como “Dama por um Dia”, a filmes de grandiosidade imensurável para o cinema americano e mundial (“A Malvada”, “Baby Jane”, “Jezebel”, só pra citar alguns).

Ao contrário de grande parte das estrelas da época, venceu majoritariamente pelo talento (já que a beleza, comparada a outras atrizes, lhe faltava); não foi Scarlett O’Hara, mas foi a genial Margo Channing. Papel fundamental também teve na relação entre os estúdios e os artistas: não se prendeu a contratos que levavam freqüentemente ao fim da carreira. Sua independência a libertava da obrigatoriedade de atuar em filmes determinados pelos estúdios (que eu saiba só Garbo tinha suas decisões acatadas... e olhe lá) e permitia a escolha de papéis com o qual mais se identificasse.

Quando ninguém mais a queria, a coragem lhe fez oferecer seus serviços em um anúncio de jornal. O mesmo sentimento foi combustível que a levou a contracenar em “Baleias de Agosto”, pouco antes de sua morte. Não escondia seus desafetos (Joan Crawford e Faye Dunaway, por exemplo), nem a vontade de ter ganhado, segundo ela, “pelo menos mais três Oscar”, além dos dois que já tinha.

De uma carreira de mais de 60 anos, milhares de fãs, uma música em sua homenagem, filmes que abarcam uma variedade imensa de assuntos e uma personalidade tão forte que ainda é possível ouvir seu ressoar. E no centenário do seu nascimento, uma infinidade de matérias e crônicas vem saudar aquela que talvez seja a maior atriz de todos os tempos (eu disse “talvez”). Nada mais merecido.

A adúltera, a assassina, a mendiga, a estrela de cinema esquecida, a mãe cruel... O melhor papel de Ruth Elizabeth Davis foi, definitivamente, o de Bette Davis. Durante 82 anos.

Obs.: mais filmes dela precisam ser lançados em DVD.

Post 31: Não escapo.

I

Fica com meu silêncio, então. Guarda num baú velho, põe tuas fotos sobre a minha boca te assegurando que eu me cale. Esquece tua piedade. Engole minha dor vaga, e deixa vaga uma lacuna nessa caixa de madeira pra tua crueldade.

II

Fica com minha esperança, então. Guarda no teu peito essa memória, põe tua mão sobre meus olhos te assegurando que eu não te veja. Esquece tua moral. Engole minha vontade lúcida, e deixa lúcida nessa caixa pulsante tua vontade.

III

Fico com o teu gosto na minha boca e com teu futuro nos meus olhos.

domingo, 6 de abril de 2008

Post 30: Sobre tentativas.

O blog ficou um pouco largado... a culpa é minha. Falta de imaginação e tempo. Pra movimentar (um pouco que seja) as coisas por aqui, uma clara tentativa de fazer uma poesia. Explicando um pouco a proposta da tia Cinda Gonda: trabalhar emcima do tema "." (é e não é um ponto, na verdade... é o que a sua imaginação quer que seja). Aliás... tenta também. É uma experiência libertadora.



Brilha um ponto por entre minha janela
que me lembra da saudade de ter saudade
dos caminhos sinuosos da tua boca
e das vontades tão minuciosamente sonhadas.

Brilha um ponto por entre minha janela
que me lembra de te ser fiel por toda a eternidade,
que me faz inerte ao mundo e as vontades do destino.

De sonhar, querida, sobrou o pó sobre teus objetos esquecidos.
sobrou tuas cartas queimadas
e os fragmentos de alguém que sonhava.
sobrou teus erros
e tua vontade relutante de fingir ser.

Hoje, vivo em lapsos.
Lembro, não sinto saudade.
Quanto a ti: pensa-te. E aceita.

sábado, 29 de março de 2008

Post 29: A traição das imagens.


René Magritte, pintor de origem belga, surrealismo e ilusionismo correndo nas veias e nos neurônios de gênio do século XIX.

A obra “La trahison des images” é uma das mais intrigantes do artista em questão: apresenta a imagem de um cachimbo, todavia com uma espécie de legenda dizendo que aquilo não é o que parece. “Ceci n'est pas une pipe”, cuja tradução é “isto não é um cachimbo”.

Em âmbito estético, a pintura apresenta uma linearidade de cores. Estas estão em um mesmo plano tonal: o marrom e o preto, ou seja, a predominância de um matiz escuro constitui a obra.

A traição das imagens. Uma expressão intimamente Platônica, convenhamos. As aparências, τὰ φαινόμενα, agindo como um engodo em relação à sociedade, o conceito de αλὴθεια sendo execrado por uma representação, enfim, a arte focada por uma óptica imaterial, sem sentido e sem serventia para o homem, visto o teor prescritivo do discurso de Platão.

Para ele, a arte deveria se encaixar em uma relação triádica entre o justo, o belo e o bom – o princípio de καλοκαγαθία. Todavia, se ela tem um caráter enganador, falso, não deveria existir, já que transviaria o objetivo da παιδεία. E como a παιδεία platônica valorizava a razão, não haveria espaço para a presença dos mitos e abstrações artísticas.

O artista insiste na negação da aparência. Afinal, não se pode utilizar um cachimbo “representado”, pintado, imitado. A arte seria uma reprodução da εἱδός, de uma Idéia prototípica.

Magritte esvazia o recheio de uma realidade nessa obra; a materialidade, o físico é refutado por uma frase. Uma expressão é responsável pela quebra de perspectivas estéticas e visuais: N'est pas. É uma luta contra a tendência ilusória dos olhos, um rompimento da sensibilidade inconsciente.

Parafraseando Michel Haar sobre o pensamento platônico acerca do ideal de mimesis, “a imagem artística não é mais que um reflexo do num espelho, uma ilusão sem substância.” Mas o que é mais curioso é que essa ilusão sem substância é que dá a concretude do momento, promove o processo de assimilação e reminiscências, faz com que as sinapses cerebrais aumentem a velocidade, tudo isso pelo simples prazer. O prazer aristotélico de uma representação natural, ilimitada.

É melhor preferir o impossível que é verossímil ao possível que é inacreditável.” Apoiado, Aristóteles.


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αλὴθεια
(alètheia) - aquilo que não é esquecido; verdade.
καλοκαγαθία
(kalokagathía) - princípio do bem e da beleza, bastante utilizado na literatura homérica e de grande valor na cultura artística ocidental.
παιδεία
(paidéia) - modelo de educação.
εἱδός
(eidós) - Idéia.